26 de fevereiro de 2013

Futebol: paixão compartilhada



Trípoli - Capaz de criar pontes seguras em terrenos minados, o esporte se orgulha da habilidade de parar uma guerra, de unir uma nação dividida e de reconstruir as que foram escravizadas por tiranos. Na nova Líbia, reerguida sobre os pilares da democracia após a queda do ditador Muamar Al Gaddafi, em 17 de fevereiro de 2011, um time brasileiro recebeu uma missão especial que vai muito além do esporte.

“Nós não viemos apenas para jogar. Durante muitos anos fizemos a nossa parte honrando os nossos clubes, ganhando títulos. Agora, também podemos usar a nossa experiência para levar a mensagem de superação, de paz através do futebol”, conta em entrevista ao ahe! Nunes, que, em Trípoli coordenoou a equipe de 16 jogadores do FlaMaster.  

O camisa 9 que, em 1981, foi campeão do mundo em Tokyo contra o Liverpool, recebeu o convite para o amistoso com a equipe master da Líbia no dia 17 de fevereiro, quando todo o país comemorava, nas ruas, o segundo aniversário da revolução. Nunes aceitou e, com Adílio, também campeão do mundo em 1981, convocou a equipe para o embarque rumo ao norte da África.

"Esse jogo é muito importante porque estamos enviando uma mensagem ao mundo. O meu país está bem agora, está seguro. Eu acredito que é muito positivo para as empresas e para os brasileiros também porque o Brasil é o primeiro time a jogar conosco", disse em entrevista exclusiva ao ahe, o ministro dos Esportes líbio, Abdul Salam Ghoela sobre a partida realizada no Estádio Internacional de Trípoli.

O jogo, transmitido ao vivo no último domingo, foi uma união de forças do Ministéro dos Esportes Líbio, da embaixada brasileira na cidade, do presidente do Grupo Parlamentar Brasil-Libia, Adrian Mussi, e das empresas brasileiras em atividade no país como a Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez e Odebrecht, que viabilizaram o evento. 

"Esse é o primeiro evento que fazemos após a revolução. Pude perceber que ele será o inicio de muita coisa entre a relação Brasil-Líbia. As pessoas falam muito em futuro, como podemos fazer algo juntos com o Brasil. Sendo o Brasil o primeiro a incentivar esse intercâmbio, isso será fundamental para a relação entre os países", disse Timotheo Araújo, há dois anos no país como responsável pela Andrade Gutierrez. 

Para Ibrahim Mohamed, líbio, casado com uma brasileira, assim como a embaixada representa diplomaticamente o Brasil, as empresas representam a tecnologia, a economia, o desenvolvimento do país e por isso devem manter seu posto de atuantes em iniciativas que sejam revertidas para o crescimento da população. Dos 48 anos de vida, há apenas dois ele conhece o sentido das palavras liberdade e democracia.

"Eu passei toda a minha vida esperando por um novo país. Agora, estamos ao caminho do resgate de nossa identidade. É tudo muito novo e eu espero que governo e empresas possam ter ideias como a que foi implementada no último domingo. A cultura, os negócios, o esporte (em especial o futebol)  são parte disso", disse o líbio, de Benghazi, cidade que liderou o levante contra o ditador Gaddafi, que ficou 42 anos no poder. 

Futebol: paixão compartilhada
Em um país em reconstrução, o esporte se apresenta como uma ferramenta eficaz no resgate da identidade, da esperança e do ato de celebrar. Na Líbia, o futebol é peça importante de sua cultura, mas a ditadura e a guerra o deixaram adormecido e os esforços de agora são para levá-lo revigorado à vida dos líbios.   

Admitindo a paixão pela modalidade, o secretário do Ministério dos Esportes, Juma Shushua, que insistiu que a vinda fosse de uma equipe rubro-negra, disse que os líbios acompanham não apenas as jogadas da seleção brasileira, mas o desempenho dos clubes e, em especial o do Flamengo, que, em 1985, com Adílio, Zé Carlos e Paulinho, jogou em Trípoli e Bengazi.

"O governo também foi parte disso, mas só aconteceu porque as pessoas estavam empenhadas, porque elas quiseram fazer pela Líbia. O Flamengo foi a nossa primeira experiência depois de tantos anos em silêncio. Queremos fortalecer a ligação entre os dois países. Nós temos muitas similaridades e eu espero que a nossa relação seja a cada dia mais forte", disse Juma, que, em 1985, foi um dos titulares do jogo contra o Flamengo.

Na abertura da partida, a bandeira hasteada não era a rubro-negra, mas a verde-amarela. Isso porque o que estava em jogo não era a rivalidade, mas a proposta em seguir para o pódio da democracia. Mesmo ganhando de 2x1, com dois gols de Renato Carioca, e com defesas aplaudidas de País, a balança das relações internacionais saiu equilibrada. 

Em campo, acompanhando os jogadores do Flamengo, o embaixador brasileiro Afonso Carbonar, há seis meses em Trípoli, não disfarçava o orgulho de ver bandeiras brasileiras tremulando no estádio.

"Esse encontro tem uma importância única porque é a primeira iniciativa pós-revolução envolvendo duas nações em prol do futebol e também um primeiro passo para apoiar a candidatura da Líbia à Copa Africana das Nações, de 2017. Foi uma festa que foi ratificada na expressão de cada líbio e de cada criança no estádio", falou no intervalo, enquanto dois paraquedistas (com bandeiras da Líbia e do Brasil) desciam no campo.

Com uma agenda cheia de encontros na Líbia, o presidente da Comissão Parlamentar Brasil-Líbia, Adrian Mussi, destacou que  o futebol é uma paixão que conecta os dois países e que, certamente, seria uma excelente forma de oferecer a contribuição brasileira no momento de reorganização do país árabe banhado pelo Mar Mediterrâneo. 

"Hoje é um dia muito feliz que reforça a celebração do aniversário da revolução. Acredito que há uma infinidade de programas onde Brasil e Líbia possam se encontrar e se ajudar. O esporte é um deles", contou o também deputado federal (PMDB-RJ), que a cada dia soma uma nova ideia na lista de iniciativas que possam ser implementadas na Líbia.  

Com metade da vida passada em Trípoli e a outra metade no Brasil, Mohamed El Zwei conhece bem cada particularidade dos dois países e sua ligação com o futebol. Ele é um entusiasta do elo desta relação e um dos que se empenharam para o encontro do Flamengo em Trípoli. 

"Eu sai do meu país em busca de oportunidade, fugido da ditadura e só conheci a democracia no Brasil, que me acolheu. Eu acho que esse encontro no futebol é um grande avanço e muito positivo para os dois lados",  disse o representante comercial da Andrade Gutierrez, na Líbia. 

Em sua segunda vez em Tripoli,  Adílio, se deparou com uma nova cidade, com uma nova cultura e um ar mais leve, sem peso de desmandos de tiranos. 

"Antes, era um outro país com pessoas mais fechadas, tristes, com receio. Hoje eu pude ver outra Libia e desejo que o futebol faça parte dela!"

Matéria: Por Natália da Luz direto de Trípoli - Líbia

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